Corrupção, roubo e capitalismo: uma relação inseparável (por Átila de Menezes Lima – Colegiado de Geografia da UNIVASF)

Por: Átila de Menezes Lima (professor de geografia da Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF).

Você é contra a corrupção? Você sabia que existe uma lógica inseparável entre corrupção e o sistema capitalista? Você sabia que seu tempo social de trabalho é roubado e você não recebe por esse tempo roubado? Você sabia que seu salário não é o equivalente ao tempo de trabalho que você vendeu e, portanto, é venda desigual? Afinal O que é corrupção?

Na maioria dos dicionários teremos uma síntese de que a corrupção é o efeito de corromper alguém para obter vantagens em relação aos outros por meios ilícitos ou ilegais, podendo estar no meio político, jurídico, econômico e em todas as dimensões de nossas vidas.

Já o roubo é um crime contra a propriedade privada. O roubo está presente tanto na extração pela força de um patrimônio, assim como do tempo de trabalho não pago aos trabalhadores, a chamada mais-valia. Aparentemente nos é passado que o salário é o preço justo pela venda de sua força de trabalho, mas quando vamos além da aparência, nosso tempo de trabalho e o que produzimos nesse tempo vai além do dinheiro que nos pagam, portanto, é uma relação de não iguais, é o roubo de nosso tempo. O fato que unifica tanto a corrupção, assim como o roubo, é justamente a propriedade privada dos meios que produzem as riquezas materiais de uma sociedade.

No caso da sociedade capitalista, tanto as terras, como o dinheiro, como os instrumentos que produzem as riquezas, assim como as fábricas foram privadas na mão de poucas pessoas, fato que gera as desigualdades sociais e toda a perda de sentindo da vida pela qual a humanidade vive hoje, onde o dinheiro virou o deus do vazio.

E vocês sabem como surgiu a o capitalismo e a propriedade privada? Sabiam que foi através do roubo, da grilagem, da pirataria, da expropriação de terras através da violência contra os pobres, inclusive através do direito e das “leis”? (nem tudo que é legal é justo), tudo isso numa coisa chamada de acumulação primitiva, o chamado pecado capital do capitalismo.

Ou seja, o modo de produção capitalista tem suas origens naquilo que Marx (2013) em O Capital denomina de processo de acumulação primitiva. Neste sentido Huberman (1959) parafraseando Marx assim resume tal processo como sendo

A descoberta de ouro e prata na América, a extirpação, a escravização e sepultamento, nas minas, da população nativa, o início da conquista e saque das Índias orientais, a transformação da África num campo para a caça comercial aos negros, assinalaram a aurora da produção capitalista. (HUBERMAN, 1959, p.158)

Huberman ainda acrescenta que

O comércio – conquista, pirataria, saque, exploração – essas são as formas, portanto, pelas quais o capital necessário para iniciar a produção capitalista foi reunido. Não é sem razão que Marx escreveu: “Se o dinheiro ’vem ao mundo com uma mancha congênita de sangue numa das faces’, o capital vem pingando da cabeça aos pés, de todos os poros, sangue e lama”.

Ou seja, o capitalismo tem como processo de gênese a corrupção, o roubo, o sangue dos pobres desde o início até hoje. E para se manter precisa destas coisas. Em certos momentos até legaliza pelas leis, coisas que eram tidas como ilegais. Isso é terrível, mas essa é a moral e a ética do capital. Um modo de produção que nasceu das piores sujeiras e que para se manter precisa fazer atos sujos para existir e sobretudo explorar ao máximo os trabalhadores com muito trabalho, com cargas horárias enormes e salários baixos. Precisa tornar desigual os direitos das mulheres em relação aos homens e as explorarem ao máximo. Precisa colocar trabalhador contra trabalhador num processo de competição de vendas por comissão ou por produção. Para se manter, o capitalismo precisa mentir e corromper para a aprovação de reformas trabalhistas que lascam os trabalhadores e precisam de reformas da previdência que condenam os mais pobres à barbárie total. Precisa expulsar indígenas, quilombolas, povos tradicionais em geral para aumentar seus lucros com atividades econômicas que degradam o ambiente e privatizam ainda mais a natureza.

Ou seja, se você é um verdadeiro crítico da corrupção, do roubo, deve ser contra o capitalismo, pois ai se encontram as maiores corrupções e atrocidades da história da humanidade. Caso contrário, você é só mais um demagogo na história. E seus atos contribuem para a história de roubo e morte da humanidade pelo capitalismo.

Referências bibliográficas:

HUBERMAM, Leo. A história da Riqueza dos Homens. 21ed. Rio de Janeiro traduzido da 3ª edição – LCT. 1959.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política: livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

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