A (In)Visível Saúde da Pessoa com Deficiência (TPD n. 10)

n.º 10, 29/11/2017*

“TEXTOS PARA DISCUSSÃO” (TPD) é uma publicação da Seção Sindical dos Docentes da UNIVASF**
por Karla Daniele Luz


Falar em saúde da pessoa com deficiência é trazer à memória os mais absurdos e indignos relatos que diariamente nos chegam, a saber:


* Homem cego vai ao hospital, ao entrar no consultório escuta:
– E você veio sozinho? Ninguém te acompanhou?
Calmamente o paciente responde:
– Não Dr. Inadvertidamente o médico diz:
– Então vá ali e tire a camisa para eu te examinar.
O homem a sua frente respira fundo e diz:
– Dr. poderia me explicar onde é ‘ali’?
*Mulher surda procura posto de saúde com fortes dores na região genital.
Aflita olha para o médico e faz nervosamente o sinal da vagina (dedo indicador e polegar juntos na testa). Após alguns minutos ela sai da consulta com uma receita de colírio.
*Mãe leva o filho com deficiência intelectual a profissional de saúde e explica que após saírem da igreja ele teve uma convulsão. Como assim ele foi para a igreja? Ele não precisa ter vida social, ele deve ficar em casa – afirma a profissional.
Calmamente a mãe responde:
– Dra. Meu filho vai comigo para onde eu for, porque meu filho também é gente!
– Veja só, seu filho precisa de inúmeros tratamentos, ele tem uma deficiência que trará muitas complicações. Mas vejo que vocês não tem condições financeiras, então dê-lhe os medicamentos e deixe em casa. (Orientação dada por profissional de saúde a uma mãe de criança com deficiência)
Esses e tantos outros depoimentos nos chegam todos os dias como uma “denúncia viva” do descaso ou melhor da invisível saúde da pessoa com deficiência. Todos os dias pessoas com deficiência sofrem não apenas os problemas de saúde que podem acometer qualquer pessoa, mas sofrem por não ter quem lhes acolha, quem lhes trate com dignidade, ética e respeito no cuidado a sua saúde.
Vamos pensar? Todos os anos incontáveis profissionais de saúde chegam ao mercado de trabalho, assustadoramente, embora já tenhamos uma legislação e uma Política Nacional de Saúde da Pessoa com Deficiência, esses profissionais vão atuar sem nada conhecerem e praticarem sobre a saúde dessa população.
A nossa realidade hoje é a seguinte:
* Evento (é vento?) sobre cuidados e prevenção ao suicídio somente contempla pessoas sem deficiência. Ano passado um surdo cometeu suicídio em nossa cidade.
* Evento (é vento?) sobre saúde materno/infantil só se fala da mamãe sem deficiência e do bebe idem. Enquanto isso inúmeras mulheres com deficiência grávidas e puérperas padecem de falta de informação.
Enquanto isso incontáveis mães não conseguem amamentar pois estão em pleno luto do filho desejado, tendo nos braços o filho com deficiência que não idealizaram.
* Evento (é vento?) de formação em saúde para graduandos, apontando toda perspectiva de atendimento em saúde pública, prevenção, empoderamento,
conscientização. Momento ímpar sem dúvida, porém, os estudantes saem conscientes e impactados somente sobre a saúde das pessoas sem deficiência. Enquanto isso surdos, cegos, dows, usuários de cadeiras de rodas, crianças com síndromes raras adoecem ao lado…sofrem ao lado…
*E que tal falarmos dos meses coloridos (setembro amarelo, outubro rosa, novembro azul)?
Com todos os holofotes possíveis transmitem informação, 
prevenção e saúde às pessoas sem deficiência. Enquanto isso nos bastidores da vida real pessoas com deficiência se suicidam, mulheres surdas morrem de câncer de mama e homens cegos sofrem com câncer de próstata.
Entra ano e sai ano e vamos cada vez mais observando a perpetuação do que chamamos “práticas excludentes em saúde”. Praticamente tudo que é realizado em saúde tem por foco pessoas sem deficiência. Até quando? Até quando perpetuaremos isso?
Até quando formaremos profissionais de saúde para atuarem com humanos dentro de um padrão físico ou de funcionamento sensório intelectual. Até quando pactuaremos com nossos alunos que eles podem dizer, ainda que contrarie a legislação vigente?
– Não estou preparado para atender você. Não vi nada a seu respeito na universidade.
É lamentável que em uma sociedade do “politicamente correto”, de muitas bandeiras e muitas marchas, haja total silencio e descaso com aquilo que é real: todos os dias pessoas com deficiência padecem, por terem sua saúde relegada e pela miserável conduta de se tratar a deficiência e não o sujeito.
É lamentável que em meio a tantos eventos, formações, encontros e discussões
pessoas com deficiência padecem do lado de fora de fora de nossas práticas em saúde…
Infelizmente numa sociedade cuja atual propagação é ‘falar’ politicamente correto e não ‘viver’ politicamente correto, não é de se admirar que desfrutemos de um discurso cotidiano verborreico que nada muda e nada faz…
Cá entre nós…cada vez mais acreditamos que discurso e inclusão não combinam. Combina discurso e prática…
Assim paremos de falar e vamos praticar; praticar saúde para qualquer pessoa tenha ou não deficiência. Afinal não é justo que diante de nós alguém padeça da maior dor que um humano possa enfrentar: a dor de não ter quem acolha sua dor.
Se de alguma forma esse texto te fez pensar então vamos tornar a saúde da pessoa com deficiência VISÍVEL e PRÁTICA.
Profa. Karla Daniele Maciel Luz
Colegiado de Psicologia
Núcleo de Práticas Sociais Inclusivas//UNIVASF

SDVSF Textos p Discussão logo

 

* Este é um espaço para publicação em fluxo contínuo de textos de docentes, técnicos e representantes estudantis da Univasf e outras instituições de ensino superior, bem como ativistas, intelectuais e colegas sobre a defesa da educação e da universidade brasileira pública, gratuita, laica, democrática e de qualidade, bem como a construção de uma sociedade justa, solidária, plural e livre. A ideia também é de receber textos em vários estilos: ensaio, jornalístico, acadêmico, poético, desde que dentro do recorte editorial acima e respeitando-se o limite de 10 páginas. Os textos serão publicados na rede mundial de computadores, podendo também ser impressos e distribuídos dentro e fora do espaço universitário.
** As posições apresentadas nos artigos são de responsabilidade dos autores e não representam necessariamente a opinião da Diretoria Executiva da SindUnivasf.

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