“Cadê meu tempo que estava aqui???” (Textos para Discussão n. 6)

n.º 06, 01/08/2017*

“TEXTOS PARA DISCUSSÃO” é uma publicação mensal da Seção Sindical dos Docentes da UNIVASF**

 

1:30 da madrugada…

Dois goles de café…

Preciso dormir…

Não consigo…

Meu corpo está cansado…

Minha cabeça não consegue parar de se preocupar com as demandas…

3:30, a musculatura dói…

O cérebro não consegue raciocinar, as palavras trocam de lugar, as vogais estão a flutuar…

O corpo cai sonolento na escrivaninha…

Num supapo pra frente quase caio no chão…

Levanto e vou dormir… e a mente trabalhando, seria isso a mais-valia relativa atrapalhando minhas funções biológicas?? Marx escreveu sobre isso???

7:30 o despertador me chama, acorda, “mete os peitos pelos fundos que na frente tem gente”. O mundo grita: “corra pra me acompanhar”…

Com medo de o mundo me atropelar, saio da cama, cabeça cheia…

Espírito pobre, sem poesia, diminuindo meu amor…

Jogo uma água no corpo… Visto uma roupa amassada…

Não tenho tempo de fazer meu próprio café…

Vou à padaria, terceirizo minha alimentação…  Engulo um pão e uns goles de café, pois preciso chegar a tempo na reunião de 8:30…

Cheguei à reunião, muitas demandas pra resolver… O zap assinala que várias pessoas querem se comunicar virtualmente, pois “não existe mais tempo” pra nós vermos… Seria isso, essa tal mais valia relativa???… Marx debateu sobre isso???

Depois desta reunião, preciso sair correndo, tenho outra reunião pra participar…

12:00 do dia… Terminamos…

Corro, preciso engolir o almoço, não posso mastigar, isso é pra quem tem tempo…

Estou vivendo “o dia e não o sol, à noite e não a lua”… e a poesia vai morrendo, o amor diminuindo e a falta de tempo se multiplicando…

Como pode? Com tanta tecnologia era pra ter mais tempo livre e não falta do mesmo… E esse tal de Marx escreveu sobre isso??? Será essa tal mais-valia relativa…

“Engolido o alimento”, meu organismo digere com dificuldade, um entalo no peito, uma queimação, os sucos gástricos parecem ficar mais ácido, querendo voltar junto com o que comi. Derrepente a bílis grita: para um pouco, tá ruim aqui… Desacelera…

Começo a ficar com falta de ar… Não posso parar agora… Tenho mais uma reunião, deixa de ser fraco penso eu comigo mesmo, que macho é tu?

O psicológico fica querendo me culpar, será que a culpa é minha mesmo??? Indago-me… Que pressão nas subjetividades…

A caminho da reunião… penso no que tenho que fazer amanhã, vixe!!! Não olhei meus e-mails, pode ter tido alguma demanda… Fico com mais falta de ar, minha subjetividade e o moralismo começam a gritar comigo: Seu irresponsávellllll, desorganizadoooooooo, que coisa feiaaa seuuuuuuu!!!!!

Respiro fundo… Estou atrasado 15 minutos… São 14:15… Vixe, tem uma manifestação na frente barrando a rua… Que chato, logo agora??? O que eles reivindicam???

Alguém na rua fala, tempo pra ser feliz, pra viver, pra trabalhar com dignidade e ter tempo pra outras coisas…

Outros dizem, isso são um bando de vagabundos, não tem o que fazer… Saiam da frente, grita um motorista nervoso, vou botar o carro por cima se não saírem, grita outro…

No meio do tumulto, vejo crianças brincando na praça, se encontrando com a vida, com aquela linda ingenuidade e amor que os adultos perderam, pois foram educados pela “burocratizon” e pelo fetichismo da mercadoria que vós ensinaram que tem que gerarem o mais-valor… Lá vem esse tal de Marx de novo…

Depois de sorrir vendo as crianças, volto a ficar sério… rua desbloqueada… 45 minutos atrasado… Droga, porque não consigo controlar meu tempo??? Com tal pergunta me assustei!!! Que coisa assustadora, eu controlar meu tempo… Tira essas ideias da cabeça, falo eu comigo mesmo…

14:45, o tempo não para, não para não dizia o poeta que foi engolido pelo tempo…

Reunião a mil… 18:00 terminamos…

Corre, tem mais trabalho às 20:30… Pé na estrada, paisagens passam no retrovisor, semblante cansado… sem jovialidade, sem brilho no olhar… Quem está roubando minha coragem, meus sonhos…???

Lembrei-me de uma cena que me representaram de uma criança que derrepente em sala de aula gritou: devolva minha vida mundo cruel!!!…

Que reflexão espontânea e carregada de uma carga filosófica imensa fez aquela criança… Porque os adultos não pensam assim??? Perguntei-me. Será que tem haver com a sociedade da burocratizon??? E com essa tal mais-valia relativa? Lembrei de imediato de Zeca baleiro ao cantar: “eu demiti o meu patrão, desde o meu primeiro emprego (… , não posso cantar, o moralismo condena), ele roubava o que eu mais-valia e eu não gosto de ladrão, ninguém pode pagar por minha vida mais vadia, eu demiti o meu patrão”…

Passei 30 minutos refletindo…

Perca de tempo refletir tanto… Preciso escrever algo… Não tenho tempo…

Será??? Que reclamão eu sou… Só reclamo… Será que sou reclamão mesmo?

Respiro fundo, procuro não pensar em nada…

Com alguns minutos, lembrei-me dos amores da vida… Das paixões ardentes… Dos relacionamentos que se desencontraram no tempo, por falta de tempo, em meio aos tempos, nas diferentes temporalidades vividas…

Pensei em namorar… mas quem vai querer um ser “sem tempo”??? Uma pessoa que não pode dar carinho, atenção pra ouvir o outro… Fiquei triste…

Parece que a humanidade não tem mais tempo pra ser humana, pra conversar sobre conversas… Pra refletir e agir coletivamente, estamos caindo na mesquinhez individualista, onde as “ronião” são pra discutir individualidades…

20:30 … 22:00…  Depois de um tempo chego em casa… Vou tentar escrever um artigo refletindo sobre o país… faz 20 dias que tento terminar… Quero escrever sobre outras coisas… Não consigo refletir… Nossa, são 23:59, vai começar outro dia…

O dia virou… Não terminei esse artigo, não fiz poesia, não arranjei uma companhia pra conversar simplicidades e complexidades e mais um dia se foi…

Estou tendo a impressão que não vivo pra mim, pensei…

E o tempo dedicado pra minha pessoa, onde está??? Cadê meu tempo que estava aqui?

A mais-valia relativa comeu…

Átila Lima – Prof. Adjunto da UNIVASF, campus Senhor do Bonfim.

22/06/16.

 

(Também contribuição do colega Átila Lima – Textos para Discussão nº 5: “Porque a importância da Geografia no ensino médio)

SDVSF Textos p Discussão logo

* Este é um espaço para publicação em fluxo contínuo de textos de docentes, técnicos e representantes estudantis da Univasf e outras instituições de ensino superior, bem como ativistas, intelectuais e colegas sobre a defesa da educação e da universidade brasileira pública, gratuita, laica, democrática e de qualidade, bem como a construção de uma sociedade justa, solidária, plural e livre. A ideia também é de receber textos em vários estilos: ensaio, jornalístico, acadêmico, poético, desde que dentro do recorte editorial acima e respeitando-se o limite de 10 páginas. Os textos serão publicados na rede mundial de computadores, podendo também ser impressos e distribuídos dentro e fora do espaço universitário.
** As posições apresentadas nos artigos são de responsabilidade dos autores e não representam necessariamente a opinião da Diretoria Executiva da SindUnivasf.

Um comentário em ““Cadê meu tempo que estava aqui???” (Textos para Discussão n. 6)

Adicione o seu

  1. Durante muito tempo, corremos em busca de um mundo de utopia, onde a paz pudesse invadir nossos corações, nossas casas e nossas almas. Mas em um caminho paralelo a esse buscamos também a facilidade do cotidiano, algo que pudesse nos tornar mais ágeis, práticos e que facilitasse as vidas e os trabalhos. Adentramos então, no mundo tecnológico, que nos prometia viver o paradoxo de estar em outro um lugar distante, diferente do ser amado, ou dos pais, ou dos amigos e mesmo assim estar ao lado, através de uma mínima tela onde poderíamos trocar a presença física pela virtual… E isso facilitava a vida, as relações, “o tempo”. O que não percebemos é que aos poucos, nos tornamos reféns das grades de nossas casas. Pequenos “cidadãos do medo”. Medo de sair, medo do sol, medo de gente, medo do mundo e principalmente, medo do amor. Temos medo de nós abrir ao outro, de mostrar quem somos e de querer saber quem o outro é. Vontade de se atirar de cabeça, de conhecer a liberdade de explorar uma cabeça fora da nossa e ao mesmo tempo medo. Medo de pisar no escuro e não ter noção do próximo passo, medo das “borboletas no estômago”. As pessoas nas telas, não precisam demonstrar sentimentos. Simplesmente, quando não se sabe mais o que falar ou como agir, despensam-se os abraços calientes e aconchegantes que desvendam qualquer máscara dessas que vestimos para encarar a vida de frente, e a conexão cai. O outro some da tela… E mais tarde, quando as conexões retornam, aquele assunto já não mais é “assuntado”. E os dias tornam-se iguais. Sem girassóis, sem calor (o humano), sem amor, sem alguém pra ficar do lado calado, olhando no olho, ouvindo a respiração e sabendo que se tem uma presença (física) de verdade. Resta só uma violência nas ruas, munida de arsenal de medos dos alienados, que não exploram mais a vida física. Que conhecem a geografia e a história e tantas outras ciências, através de fotos e telas e livros (será que ainda tem o privilégio, de se abraçar a um livro?). Não sabem o que é escalar uma montanha, nadar num rio, correr num campo verde ou mergulhar nas bravas ondas do mar imenso. E assim, com o passar dos dias… Continuamos desesperados. Correndo. Mas pra onde corremos??

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: